Artigo: Fraternidade e diálogo

Artigo publicado no Jornal Zero Hora, do dia 17 de fevereiro de 2021, página 29.

A Quarta-Feira de Cinzas, com o gesto da imposição de cinzas sobre a cabeça dos fiéis, marca o início de um itinerário de quarenta dias em preparação à festa da Páscoa.

As cinzas, sinal de humilhação, penitência e conversão recordam a caducidade da existência humana. Não só o corpo humano, mas todo vivente, aos poucos, se torna cinza. Por meio da recepção das cinzas a pessoa é, pois, recordada da própria condição e destino: “Lembra-te que és pó e ao pó retornarás”.

O maior desafio humano consiste em caminhar em direção ao seu poder/ser mais. No pressentimento da morte, está latente a possibilidade de dignificar o dom da vida. É isso que sugere a expressão “converte-te e crê no Evangelho”. Desse modo, por meio do rito litúrgico da imposição das cinzas, cada um é convidado a responder com um acréscimo de fé.

A Igreja, sobretudo durante o tempo quaresmal, propõe a seus fiéis os tradicionais exercícios do jejum, da oração e da esmola qual caminho privilegiado de abertura à graça da filiação divina. O jejum convida ao esvaziamento de si mesmo, a fim de favorecer as condições para ser fecundado pela suavidade da gratuidade. A oração expressa o desejo de ser atingido pela misericórdia divina. A esmola é amor partilhado, atitude de abertura para o outro.

Tais exercícios não são formalidades ou meras práticas exteriores; são compromissos de crescimento espiritual e generosidade pelo bem de todos. Por isso, a Igreja do Brasil, a cada ano, realiza, durante o tempo quaresmal, a Campanha da Fraternidade com um tema de relevância social.

Para este ano de 2021, o tema proposto é “Fraternidade e diálogo”. A fé nos recorda que Cristo é nossa paz. Ele nos anima a prosseguir, por meio do exercício do diálogo, na construção de uma sociedade mais justa e fraterna. Participam desta iniciativa igrejas cristãs que, atentas ao Evangelho, cultivam o diálogo, promovem a fraternidade e se esforçam para ouvir, avaliar, compreender e superar as diferenças, sem desconsiderar a verdade.



Autor:
Por Dom Jaime Spengler, arcebispo metropolitano e primeiro vice-presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

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