Entre a Síndrome de Babel e o chamado à Sinodalidade

03/08/2026

Entre a Síndrome de Babel e o chamado à Sinodalidade

No Brasil, há 45 anos, desde 1981, agosto é o mês vocacional, numa dinâmica que destaca todas as vocações na Igreja, Povo de Deus: cristãos leigos e leigas, vida consagrada e ministros ordenados (diáconos, padres e bispos). A variedade de ministérios nas comunidades eclesiais é uma riqueza! Dons partilhados, sabedoria, interajuda, serviços, alegrias, relações, diálogos, discernimento, processos, avaliação, planejamentos... Uma sinfonia vocacional! As atuais Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (DGAE), 2026-2032, em seu número 69, menciona a metáfora da orquestra e da harmonia, no contexto de uma Igreja Sinodal, citando uma frase do parágrafo 42 do Documento Final do Sínodo (DFS): “Enquanto porção do Povo de Deus, a Igreja local exerce sua missão configurando-se sinodalmente, qual orquestra de dons, na qual a ‘variedade dos instrumentos é necessária para dar vida à beleza e à harmonia da música, no seio da qual a voz de cada um mantém os seus traços distintivos a serviço da missão’ (DFS 42)”.

 

A celebração do mês de agosto deste ano ganha alguns destaques: a preparação imediata ao 5º Congresso Vocacional do Brasil, marcado para os primeiros dias de setembro, em Aparecida (SP); a encíclica do papa Leão XIV, sobre o chamado a salvaguardar o humano na era da Inteligência Artificial (IA); e o processo de implantação da Igreja Sinodal, tendo as DGAE como uma das estratégias. Uma tríade interligada, em comunhão, assim como indicam tema e lema do Congresso Vocacional: “Comunidades Vocacionais: encontro, testemunho e missão”; “Perseverantes e bem unidos, partiam o pão pelas casas” (cf. At 2,46). Que a celebração do mês vocacional fortaleça a nossa comunhão, o encontro, o testemunho e a missão!

 

Ao ler as primeiras linhas da carta encíclica do papa, Magnifica Humanitas (MH), somos impelidos a reler o texto de Gênesis 11,1-9, conhecido como “A Torre de Babel”. Logo na introdução, assim escreve o papa: “A Magnífica Humanidade criada por Deus encontra-se hoje perante uma escolha decisiva: erguer uma nova torre de Babel ou construir a cidade onde Deus e a humanidade habitam juntos” (MH, n. 1). Estamos diante de caminhos a escolher, assim como no relato da Criação, quando Deus disse: “Podes comer de todas as árvores do jardim, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; pois no dia em que dela comeres, decerto morrerás” (Gn 2,16-17). Conhecemos o restante da narrativa em Gênesis. Nós, humanos, optamos pelo caminho “proibido”, mas disponível.

 

A humanidade está diante de uma escolha decisiva entre a Síndrome de Babel (Gn 11,1-9) e o caminho de Neemias (Ne 2-6), assim nos provocou o papa na encíclica. “Que direção escolher enquanto comunidade humana e enquanto povos?” (MH, n. 6). A escolha não é simplesmente entre “um sim ou um não à tecnologia”, mas vai além. Devemos escolher entre as duas, compreendendo bem as opções. A primeira, carrega consigo “a idolatria do lucro, que sacrifica os mais fracos; a uniformidade, que anula as diferenças; a pretensão de uma linguagem única – mesmo digital – dedicada a traduzir tudo em dados e desempenhos, inclusive o mistério da pessoa”. A segunda opção, “destaca o valor do trabalho conjunto para garantir a segurança da cidade; edificar juntos, transformando a diversidade em recurso e fazendo da escuta e do diálogo terreno comum no qual crescem a justiça e a fraternidade”. A síndrome de Babel traz “o risco da desumanização”, ou seja, o desejo de “construir o futuro excluindo Deus e reduzindo o outro a um meio”; o caminho de Neemias, por sua vez, traz consigo a “prática da sinodalidade: não impõe soluções, convoca as famílias, confia a cada uma delas uma parte da reconstrução, ouve os receios, coordena os esforços, enfrenta as oposições. Responsabilidade partilhada por todo o povo. Tem Deus no centro e reconstrói as relações antes mesmo das pedras” (cf. MH, nn. 8 e 10).

 

O papa Francisco, falecido em 2025, deixou-nos uma mensagem sobre a história bíblica da Torre de Babel. Foi durante o encontro anual promovido pelo Dicastério para a Cultura e a Educação, no dia 23 de março de 2023, reunindo “especialistas do mundo da tecnologia – cientistas, engenheiros, empresários, juristas e filósofos – juntamente com representantes da Igreja – oficiais da Cúria, teólogos e moralistas – com o objetivo de promover maior consciência e consideração do impacto social e cultural das tecnologias digitais, especialmente da inteligência artificial”. Em sua mensagem, Francisco disse que a Torre de Babel tem sido utilizada “para alertar contra as ambições excessivas da ciência e da tecnologia”. O texto nos adverte “contra o orgulho de querer tocar o céu (v. 4), ou seja, agarrar e apoderar-se do horizonte de valores que identificam e garantem a nossa dignidade humana. E sempre, quando isto acontece, acabamos numa grave injustiça na própria sociedade”. Fazer um tijolo para levantar as paredes de um edifício não é fácil, pois exige a preparação do material. “Quando um tijolo caía, era uma grande perda, queixavam-se tanto: Perdemos um tijolo. Se caía um operário, ninguém dizia nada. Isto deve fazer-nos pensar: o que é mais importante? O tijolo ou o homem ou mulher que trabalha?”. Deus intervém naquela realidade, gerando nova possibilidade de caminhar, por outras vias. A criação de línguas diferentes convida-nos “a considerar a diferença e a diversidade como uma riqueza, porque a uniformidade não deixa crescer, a uniformidade imposta. Apenas uma certa uniformidade disciplinar é boa – pode ser – mas a uniformidade imposta é negativa. A falta de diversidade é falta de riqueza, porque a diversidade exige que aprendamos uns com os outros e que redescubramos humildemente o significado autêntico e o alcance da nossa dignidade humana”, afirmou Francisco.

 

Em nosso caminhar, no cotidiano, em nossas realidades, vivemos entre a síndrome de Babel e o chamado à sinodalidade (caminho de Neemias). Interessante observar que ambas as opções utilizam uma mesma raiz grega: syn, que significa “junto/com”. Síndrome (syn + dromos), atualmente ligado à medicina, significa um conjunto de sinais/sintomas que ocorre em uma pessoa sem uma única causa. Sínodo (syn + hódos) significa fazer caminho junto com outra pessoa. “Dromos” nos remete à corrida ou pista de corrida; “hódos” é caminho, via, estrada. Autódromo e hipódromo são palavras que também utilizam o “dromos”, enquanto método e êxodo são algumas com o “hódos”. Correr junto seria o significado literal de síndrome, enquanto caminhar junto é o significado de sínodo. Uma diferença sutil, mas importante compreender para bem escolher. Um provérbio africano resgatado pelo papa Francisco na exortação apostólica pós-sinodal Christus Vivit, de 2019, pode ajudar a entender tal diferença sutil: “Se queres andar rápido, caminha sozinho. Se queres ir longe, caminha com os outros” (ChV, n. 167).

 

Caminhar com os outros, eis uma boa escolha! Na encíclica do papa Leão XIV há um excelente ensinamento sobre o bem comum, que dá vida a um povo, compreendido não como mera soma de indivíduos, mas como realidade viva na qual as pessoas aprendem a reconhecer-se interligadas e corresponsáveis. “Trabalhar em conjunto na busca do bem de todos significa ter um projeto partilhado. É evidente que, dada a diversidade de pessoas, existem muitas diferenças ideológicas e pragmáticas, interesses variados e contrastes frequentes, mas isso não impossibilita um percurso de diálogo, configurador de uma base de consensos que permita constituir um projeto para todos e caminhar juntos” (MH, n. 62).

 

Somos chamados a salvaguardar o humano em tempos desafiadores. Faz-se necessário compreender o risco no uso das novas tecnologias, que podem aparentar ser justo e normal “uma visão anti-humana, segundo a qual a plenitude da vida consistiria em possuir mais, em reduzir a fragilidade, eliminar o imprevisto e controlar tudo. Quando a eficiência se torna a medida do valor, o ser humano é tentado a pensar-se como um projeto a ser otimizado, mais do que como uma criatura chamada à relação e à comunhão” (MH, n. 112), afirma o papa Leão. “Em um ecossistema, a harmonia se rompe quando uma única espécie prolifera em detrimento das outras; o mesmo acontece no ser humano. A inteligência, se absolutizada, acaba por obscurecer outras dimensões essenciais da vida: o afeto, a vontade, a dedicação e a relação. Não se trata de se opor à inteligência, mas de recordar que esta, quando se fecha em si mesma, esquece ter sido feita para servir a vida e a pessoa humana” (MH, n. 113).

 

O mês vocacional vem recordar de nosso chamado à missão, ao cuidado da vida, ao anúncio do projeto de Deus, que é amor. Isso vale para cada um de nós, membros da Igreja, pelo batismo, mas também vale para todas as comunidades eclesiais, que são comunidades vocacionais. “Enquanto as novas redes econômicas e tecnológicas podem gerar exclusão, isolamento e dependências, a Igreja alimentada pela Eucaristia é chamada a mostrar outro critério, preservando os vínculos, devolvendo voz aos que não são vistos e orientando os processos para a dignidade das pessoas (MH, n. 235). Assim como o chamado de Deus é permanente, a conversão das relações, dos processos e dos vínculos também é. Isso nos recorda o Documento Final do Sínodo, um texto essencialmente vocacional. Uma Igreja Sinodal é uma Igreja que chama, sempre, através do Espírito Santo, à conversão, para formarmos um povo de discípulos missionários.

 

Escolhamos, pois, a vida, o caminho da sinodalidade, que é o caminho da humanidade. E que tenhamos um excelente mês vocacional.

 

Dom Juarez Albino Destro, rcj
Bispo Auxiliar de Porto Alegre



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