09/06/2026
No próximo dia 12 de junho, a Arquidiocese de Porto Alegre viverá mais um momento de graça com a ordenação presbiteral do diácono transitório Marcelo Aguiar Rodrigues Ramos. Natural de Alvorada, criado no bairro Umbu e formado ao longo de nove anos de seminário, Marcelo traz consigo uma história marcada pela simplicidade, pela vida comunitária e por um chamado que nasceu silenciosamente no coração de um jovem que, um dia, apenas decidiu participar da catequese.
A ordenação representa a culminância de uma caminhada que começou muito antes dos estudos filosóficos e teológicos. Ela nasceu na rotina simples de uma família trabalhadora, no ambiente acolhedor da comunidade e na descoberta gradual de que Deus o chamava para algo maior.
Marcelo foi o entrevistado da semana no PodQuestão ArquiPoa, podcast da Arquidiocese de Porto Alegre, e compartilhou lembranças da infância, o processo de discernimento vocacional e as expectativas para o momento mais importante de sua caminhada: a ordenação sacerdotal.
Da infância simples ao encontro com a comunidade
Filho único, Marcelo cresceu em Alvorada. Enquanto o pai trabalhava à noite na área de segurança e a mãe saía cedo para trabalhar em uma metalúrgica, sua vida seguia um roteiro comum: casa e escola. Tudo mudou quando, por volta dos 12 anos, ingressou na catequese da então Comunidade Menino Jesus, hoje Paróquia Nossa Senhora Desatadora dos Nós.
Ele brinca dizendo que “cai na Igreja ‘quase’ de paraquedas”. O que começou como participação na catequese logo se transformou em envolvimento cada vez maior na vida da comunidade. Vieram a Crisma, o grupo de jovens, o aprendizado do violão e, posteriormente, a missão de catequista. A Igreja deixou de ser apenas um lugar frequentado e se tornou sua segunda casa.
Naquela época, porém, a ideia de ser padre parecia distante. Como tantos outros jovens, Marcelo sonhava com uma profissão, uma casa e uma família própria. O sacerdócio não fazia parte dos seus planos.
Um chamado que insistia em permanecer
Embora ele resistisse à ideia, algumas pessoas ao seu redor já percebiam algo diferente. Padres, religiosas e membros da comunidade frequentemente sugeriam que ele considerasse a vocação sacerdotal. Marcelo, no entanto, respondia sempre da mesma forma: “isso não era para mim”.
Foi então que um gesto aparentemente simples começou a mudar sua história. O então padre Sílvio Guterres Dutra, hoje Dom Sílvio, entregou-lhe uma revista vocacional. Ao ler os testemunhos dos sacerdotes, Marcelo encontrou histórias muito parecidas com a sua. Pela primeira vez, começou a se perguntar se aquele caminho também poderia ser para ele.
O discernimento ganhou força após o término de um namoro. Conversando com seus párocos e participando dos encontros vocacionais do Kairós, ele foi descobrindo uma imagem mais profunda do sacerdócio. “Eu pensava que o padre era apenas alguém que celebrava a missa. Depois fui percebendo que era alguém que caminhava com o povo, visitava as famílias, acompanhava as comunidades e se fazia presença na vida das pessoas”, recorda.
A frase que mudou tudo
Entre tantas experiências vividas no processo vocacional, uma marcou definitivamente sua decisão. Durante um encontro vocacional, o então padre Maurício Jardim, hoje bispo auxiliar da Arquidiocese de Curitiba, compartilhou sua experiência missionária em Moçambique e falou sobre comunidades que passavam anos sem a presença de um sacerdote. Em seguida, lembrou que a realidade não era tão distante: também em Porto Alegre havia comunidades que celebravam a missa apenas uma vez por mês.
Aquelas palavras permaneceram ecoando em seu coração.
Pouco tempo depois, Marcelo decidiu participar do retiro vocacional. O que começou como curiosidade transformou-se em certeza. Em março de 2017, aos 19 anos, ingressou oficialmente no seminário.
O apoio que fortaleceu a vocação
Toda vocação precisa de apoio para florescer. Na história de Marcelo, esse apoio veio especialmente de seus pais.
Quando compartilhou com eles que estava discernindo a possibilidade de ser padre, ouviu uma resposta que jamais esqueceu: “Filho, se tu estás feliz naquilo que escolher, nós também estaremos felizes contigo.”
A frase tornou-se um marco em sua caminhada. Ao longo da formação, os pais acompanharam de perto cada etapa, participando de missas, celebrações e momentos importantes da vida do filho. Tios, amigos e membros da comunidade também estiveram presentes, sustentando sua vocação com amizade e oração.
Nove anos de formação e amadurecimento
A caminhada no seminário trouxe desafios e aprendizados. Marcelo lembra que uma das primeiras dificuldades foi adaptar-se à disciplina da rotina: acordar cedo, organizar os horários de oração, estudo e atividades pastorais. Com o tempo, porém, aquilo se transformou em hábito e ajudou a moldar sua vida espiritual.
Vieram os anos de filosofia, teologia, ministérios e experiências pastorais. Entre os momentos mais marcantes, destaca o período da pandemia de Covid-19, quando os seminaristas viveram um intenso isolamento. A celebração da Páscoa dentro do seminário, em meio às incertezas daquele período, ganhou um significado especial e permanece viva em sua memória. “Por mais que a gente vivia aquele medo da Covid, a questão dos cuidados e precauções, celebrar junto como seminário foi marcante. Depois da Páscoa, a gente deu todo um sentido diferente para a pandemia."
“Amou-nos até o fim”
Se há um momento capaz de resumir toda a sua vocação, Marcelo o encontra na Quinta-feira Santa de 2015.
Ele conta que durante a celebração do Lava-Pés, ao contemplar o gesto de Jesus que se abaixa para servir seus discípulos, sentiu de maneira profunda que Deus o chamava para uma entrega maior. Mais tarde, durante a vigília eucarística, teve a certeza de que precisava responder a esse chamado.
Não por acaso, foi desse episódio que nasceu seu lema sacerdotal: “Amou-nos até o fim”.
Inspirada no Evangelho de São João, a expressão sintetiza aquilo que deseja viver como sacerdote: uma vida de amor, serviço e doação, seguindo o exemplo de Cristo que se entregou completamente pela humanidade.
“Quero viver esse exemplo de Cristo, essa doação que vai até as últimas consequências”, afirma.
O padre que deseja ser
Às vésperas da ordenação, Marcelo não fala de cargos, funções ou projetos grandiosos. Seu desejo é ser um padre próximo das pessoas, disponível para caminhar com as comunidades e servir onde a Igreja mais precisar. “Quero ser o padre de que a Igreja precisa”.
Um sacerdote presente nas alegrias e dificuldades da vida do povo, disposto tanto a celebrar os sacramentos quanto a ajudar nas tarefas mais simples do cotidiano. Quer estar junto das pessoas, como estiveram junto dele os sacerdotes que marcaram sua caminhada vocacional. “Quero ser um padre presente, um discípulo de Cristo que as pessoas possam reconhecer pela forma de amar e servir.”
Uma vocação que continua chamando
Ao olhar para trás, Marcelo diz perceber que sua história foi construída por muitos convites: o da catequese, o dos padres que insistiram para que participasse dos encontros vocacionais e o das religiosas que acreditaram nele antes mesmo que ele acreditasse em si.
Por isso, seu pedido à Arquidiocese é simples: rezar pelas vocações e não ter medo de convidar os jovens a refletirem sobre o chamado de Deus.
Afinal, como ele mesmo costuma repetir aos jovens que encontram as mesmas dúvidas que um dia teve: “Só vai descobrir se Deus te chama quando fizer a experiência. Se tiver medo, vai com medo mesmo. Mas vai.”
No dia 12 de junho, quando ouvir seu nome ser chamado e se prostrar diante do altar para receber a ordenação presbiteral, Marcelo levará consigo muito mais do que nove anos de formação. Levará a fé de uma comunidade que o acolheu, o amor de uma família que o apoiou e a certeza de que Deus continua chamando homens dispostos a amar, servir e entregar a própria vida pelo Evangelho.
A história daquele menino que um dia “caiu na Igreja de paraquedas” ganha agora um novo capítulo. A comunidade que o viu crescer na fé se prepara para vê-lo retornar como padre, pronto para viver o lema que escolheu para sua vida sacerdotal: amar até o fim.
Assista ao PodQuestão ArquiPoa e confira a entrevista completa!