29/10/2026
Apresentação realizada na quarta-feira, 28 de outubro, marcou os 138 anos do prédio histórico e destacou a importância da reinserção social, da dignidade humana e das oportunidades de reconstrução de vida
A música abriu espaço para a emoção, o encontro e a esperança na Cúria Metropolitana de Porto Alegre. Na quarta-feira, 28 de outubro, os integrantes do coral da Associação de Proteção e Assistência aos Condenados (APAC), de Porto Alegre, realizaram, pela primeira vez, uma apresentação fora do ambiente de encarceramento. O encontro ocorreu no prédio histórico da Arquidiocese de Porto Alegre, que completou 138 anos em outubro, e evidenciou o papel da arte e das oportunidades no processo de reinserção social de pessoas privadas de liberdade.
A apresentação reuniu representantes da APAC, autoridades eclesiásticas e integrantes do sistema de Justiça em um momento que ultrapassou o caráter artístico. Para os participantes, a experiência representou a possibilidade de estar em contato com a sociedade, compartilhar o trabalho desenvolvido durante o período de recuperação e mostrar os caminhos que podem ser construídos para o retorno à vida em comunidade.
A presidente da APAC, Célia Amaral, destacou o significado da iniciativa para os recuperandos e para a proposta da instituição.
Segundo ela, este “momento representa a introdução dessas pessoas de volta à sociedade”, afirmou. Para Célia, a arte, a educação e o convívio social contribuem para o processo de transformação pessoal. Célia também agradeceu ao arcebispo de Porto Alegre, Dom Jaime Cardeal Spengler, e à Arquidiocese pelo convite e pela acolhida.
Uma experiência que ficará na memória
Para os integrantes do coral, a apresentação representou uma oportunidade inédita de vivenciar um ambiente diferente daquele da rotina de privação de liberdade.
O participante Jocemar de Farias descreveu o momento como uma experiência que permanecerá na memória dos integrantes do grupo. “Para mim e para os meus irmãos, hoje representa uma coisa que vai ser marcante para o resto da nossa vida”, declarou.
Ele ressaltou que a participação no coral também pode contribuir para aproximar os recuperandos da sociedade e dar visibilidade ao trabalho realizado pela APAC.
“Eu sempre falei lá dentro da APAC para os meus irmãos que o coral é uma porta aberta para fazer a divulgação do nosso retorno para a sociedade e também para poder mostrar a nossa Associação de Proteção aos Condenados”, afirmou.
A apresentação, nesse sentido, tornou-se uma oportunidade de mostrar que o processo de recuperação também passa pela construção de vínculos, pelo reconhecimento da dignidade de cada pessoa e pela possibilidade de desenvolver novas perspectivas para o futuro.
Cúria Metropolitana: 138 anos de história
O encontro integrou as celebrações dos 138 anos do prédio da Cúria Metropolitana, patrimônio histórico de Porto Alegre.
Construído para abrigar o primeiro seminário da província do Rio Grande do Sul, o edifício teve sua trajetória ligada à formação religiosa durante muitos anos. Inicialmente, o seminário foi dirigido pelos capuchinhos. Posteriormente, com a criação do seminário de São Leopoldo, a utilização do espaço passou por mudanças.
De acordo com Dom Jaime Cardeal Spengler, arcebispo metropolitano, entre o final da década de 1960 e o início da década de 1970, o então cardeal Vicente Scherer decidiu transferir sua residência para o local. O prédio passou por reformas e, desde então, tornou-se residência dos bispos. Até recentemente, também concentrava os serviços administrativos da Cúria.
Ao relacionar a história do edifício à apresentação do coral, Dom Jaime ressaltou a importância de acolher iniciativas que contribuam para a transformação social.
“Eu creio que nós devemos apostar quando somos capazes de proporcionar oportunidades, acreditando no ser humano. Quem ganha é a sociedade”, afirmou.
O arcebispo destacou ainda o trabalho desenvolvido pela APAC no acompanhamento dos recuperandos, com o objetivo de favorecer o retorno à vida social com profissão e dignidade.
APAC aposta na recuperação e na reintegração social
A Associação de Proteção e Assistência aos Condenados desenvolve uma proposta de cumprimento de pena voltada à recuperação da pessoa privada de liberdade e à sua reintegração à sociedade. O método valoriza a corresponsabilidade, a participação comunitária e a construção de condições para que os recuperandos possam retomar a vida social.
O promotor de Justiça Gilmar Bortoloto, que trabalhou durante 17 anos na fiscalização de presídios comuns, relatou que conheceu o método APAC em Minas Gerais, em 2012. A experiência o motivou a atuar pela implantação do modelo no Rio Grande do Sul.
Atualmente, o Estado conta com três unidades: em Porto Alegre, Passo Fundo e Pelotas. Outras iniciativas estão em andamento para ampliar a presença do método.
Para Bortoloto, a proposta representa uma alternativa capaz de enfrentar os limites de um sistema baseado exclusivamente na punição.
Segundo ele, a “punição pura e simples, sem reflexão sobre o que me levou a ser preso, não funciona”, afirmou. Na avaliação do promotor, o acompanhamento dos recuperandos e a preparação para o retorno à sociedade são fundamentais para reduzir a reincidência criminal e evitar novos prejuízos à comunidade.
Ele também ressaltou a importância do apoio recebido da Arquidiocese de Porto Alegre para a realização de iniciativas relacionadas à recuperação e à reinserção social.
Igreja e APAC: uma parceria em favor da dignidade humana
A presença da Igreja Católica no trabalho de recuperação das pessoas privadas de liberdade também ganha destaque. Frei Orestes Serra, referencial espiritual da APAC e integrante de sua presidência, explicou que a história do método está ligada à atuação de pessoas envolvidas com a Pastoral Carcerária. Ele mencionou o trabalho de Mário Ottoboni e Franz de Castro, que está em processo de beatificação em reconhecimento à sua atuação junto às pessoas privadas de liberdade.
Frei Orestes ressaltou que o acompanhamento espiritual permanece como uma dimensão importante do trabalho da APAC, que atualmente acolhe pessoas de diferentes tradições religiosas. “É fundamental o trabalho, o apoio que a Igreja Católica vem dando através da Pastoral Carcerária junto aos recuperandos da APAC”, afirmou.
Arquidiocese disponibiliza espaço para futura APAC feminina
Em Porto Alegre, a Arquidiocese também participa da articulação para a implantação de uma unidade feminina, oferecendo apoio à iniciativa e um espaço físico para viabilizar o projeto.
A proposta amplia a perspectiva de atuação conjunta entre Igreja, instituições públicas e comunidade, com o objetivo de favorecer a recuperação das pessoas privadas de liberdade e a construção de novas possibilidades de vida.
Um dos assuntos destacados durante a apresentação foi o avanço das tratativas para esta implantação.
Segundo Dom Jaime, a Arquidiocese disponibilizou um imóvel que anteriormente abrigava uma casa de acolhida para pessoas em situação de rua. O espaço está desocupado desde o período das enchentes, após a interrupção das atividades da entidade responsável por sua manutenção.
A proposta é destinar o local ao acolhimento de mulheres em processo de transição do sistema prisional para a vida em sociedade.
“Essa casa possa servir para acolher essas pessoas, essas mulheres, que merecem, sim, oportunidade”, afirmou o arcebispo. Ele explicou que os aspectos burocráticos estão sendo encaminhados e manifestou a expectativa de que o imóvel possa ser utilizado o mais breve possível.
A representante da APAC feminina em implantação, Simone Schroeder, explicou que a associação foi constituída em 2019 e que a pessoa jurídica foi estruturada em 2021. Desde então, a busca por um espaço físico tem sido um dos principais desafios para a concretização do projeto.
De acordo com Simone, a iniciativa também pretende contribuir para reduzir os impactos do encarceramento feminino sobre as famílias, especialmente sobre os filhos das mulheres privadas de liberdade.
“Uma forma de trabalhar isso” é oferecer condições para que essas mulheres possam reconstruir suas trajetórias, explicou.
Ela relatou que a busca por um imóvel já durava anos. Após uma visita ao local, realizada com representantes da APAC e do Ministério Público, a equipe considerou o espaço adequado à proposta.
Atualmente, estão em andamento as tratativas jurídicas para formalizar a cessão do imóvel por meio de contrato de comodato. A partir dessa etapa, será possível avançar na estruturação do projeto.
Para Simone, a implantação da unidade representa a possibilidade de construir uma sociedade mais humana e igualitária, que considere não apenas a situação das mulheres privadas de liberdade, mas também a realidade de seus filhos e familiares.