Dom Dadeus Grings é sepultado na Catedral Metropolitana, deixando marcas de fé, estudo e serviço à Igreja

23/09/2026

Dom Dadeus Grings é sepultado na Catedral Metropolitana, deixando marcas de fé, estudo e serviço à Igreja

Bispos, padres, autoridades e fiéis de diferentes comunidades participaram da Missa de Exéquias e prestaram as últimas homenagens ao arcebispo emérito da Arquidiocese de Porto Alegre

 

Bispos de dioceses coirmãs, padres de toda a Arquidiocese de Porto Alegre, autoridades e fiéis vindos de diferentes comunidades reuniram-se, nesta terça-feira, 22 de setembro, na Catedral Metropolitana, para prestar as últimas homenagens a Dom Dadeus Grings, arcebispo emérito de Porto Alegre, que faleceu aos 90 anos.

 

A Missa de Exéquias foi presidida pelo arcebispo metropolitano, Dom Jaime Cardeal Spengler. A celebração marcou o momento de despedida daquele que esteve à frente da Arquidiocese por 13 anos e deixou importantes marcas na história da Igreja no Rio Grande do Sul.

 

Após a celebração, Dom Dadeus foi sepultado na própria Catedral Metropolitana, junto aos demais bispos que o antecederam no governo da Arquidiocese.

 

Um homem que marcou a história da Arquidiocese

Ao recordar a trajetória de Dom Dadeus, Dom Jaime destacou a contribuição do arcebispo emérito para diferentes momentos e realidades da Igreja.

 

“Dom Dadeus marcou a história da Arquidiocese de Porto Alegre, primeiro como presbítero e depois como bispo”, afirmou.

 

Antes do episcopado, Dom Dadeus atuou como professor e formador. Segundo Dom Jaime, muitos dos atuais padres da Arquidiocese de Porto Alegre e também integrantes do clero de outras dioceses do Rio Grande do Sul tiveram contato com ele durante o período de formação.

 

Sua trajetória também ultrapassou os limites da Igreja local. Dom Jaime recordou sua atuação junto à Secretaria de Estado da Santa Sé e, posteriormente, como bispo da Diocese de São João da Boa Vista.

 

Na Arquidiocese de Porto Alegre, entre os legados de seu episcopado, está a criação da Diocese de Montenegro, além de importantes contribuições para o planejamento e a organização pastoral da Igreja local.

 

“Um homem simples, um homem intelectual, um homem de oração”, definiu Dom Jaime.

 

O arcebispo metropolitano também recordou momentos em que encontrou Dom Dadeus em oração, especialmente na capela da Cúria.

 

“Quantas vezes eu encontrei esse homem na capela, aqui na Cúria, de noite, sentado, sozinho, rezando”, contou.

 

Dom Jaime lembrou ainda a maneira carinhosa como costumava se referir ao antecessor na presença dos padres: “Um pai. E eu gostava sempre de denominá-lo, quando encontrava e quando estávamos com os padres, de nosso avô”.

 

“Era a diocese que tomava posse do seu bispo”

Dom Jaime, que sucedeu Dom Dadeus no governo da Arquidiocese, também recordou uma frase dita pelo arcebispo emérito por ocasião da transição do governo arquidiocesano.

 

O atual arcebispo contou que, ainda no período em que atuava como bispo auxiliar, viveu diferentes momentos de convivência com Dom Dadeus. Entre as lembranças mais marcantes está justamente a passagem do governo da Arquidiocese.

 

“É uma expressão que eu nunca tinha ouvido, que me ficou na memória”, recordou.

 

Segundo Dom Jaime, Dom Dadeus dizia que não era o bispo nomeado quem tomava posse da diocese, mas “era a diocese que tomava posse do seu bispo”

 

A frase, guardada na memória de Dom Jaime, sintetiza uma compreensão do ministério episcopal como serviço a uma Igreja concreta e a um povo confiado ao pastor.

 

Um amigo desde os tempos de formação

Entre os bispos presentes na despedida estava Dom Clemente Weber, bispo emérito de Santo Ângelo. A relação entre os dois começou ainda no Seminário Menor, em Gravataí, e se estendeu por mais de seis décadas.

 

“Amigo e colega durante 12 anos em tempo de formação. Estudei junto com ele desde o Seminário Menor, em Gravataí. Depois ele foi para Roma, um ano depois eu fui”, recordou.

 

Em Roma, os dois permaneceram juntos durante os estudos de Filosofia e Teologia.

 

Para Dom Clemente, Dom Dadeus era um homem admirável e profundamente dedicado aos estudos. “Eu tenho a convicção de que ele viveu e morreu como um santo”, afirmou.

 

O bispo emérito de Santo Ângelo recordou também a disciplina de estudos do amigo durante o período de formação. Segundo ele, Dom Dadeus aproveitava cada momento disponível para aprofundar seus conhecimentos.

 

Conforme conta Dom Clemente, depois do almoço, enquanto os demais seminaristas se preparavam para o período de descanso, Dom Dadeus costumava dedicar-se à leitura de Santo Tomás de Aquino. “Ele lia todos os dias um capítulo, uma questio de Santo Tomás de Aquino”, contou.

 

A dedicação aos estudos acompanhou toda a sua trajetória. Dom Clemente lembrou que Dom Dadeus realizou seus estudos em Roma com grande destaque acadêmico. “Ele foi um grande estudioso, fez estudos em Roma, sempre com nota máxima, summa cum laude, com todo o louvor”, recordou.

 

A amizade também se manteve nos últimos anos de vida, quando ambos passaram a conviver no Lar Sacerdotal, junto à Casa de Retiros São José, em Gravataí.

 

A simplicidade que aproximava

Dom Rodolfo Weber, arcebispo de Passo Fundo, também esteve na Catedral para prestar sua homenagem. Ordenado bispo por Dom Dadeus, ele recordou diferentes momentos da convivência com o arcebispo emérito.

 

A proximidade se intensificou quando Dom Rodolfo foi nomeado arcebispo coadjutor e passou a participar mais diretamente das questões relacionadas ao Seminário de Viamão e ao planejamento de seu futuro.

 

Entre as lembranças mais marcantes está o dia de sua ordenação episcopal, presidida por Dom Dadeus. “Foi uma data marcante da relação com ele, a ordenação episcopal, onde ele estava como arcebispo, mas também pela convivência que a gente tinha. Então teve esse dia marcante na minha vida e, claro, depois a gente conviveu no episcopado”, relatou.

 

Ao definir a personalidade de Dom Dadeus, Dom Rodolfo destacou características que, segundo ele, marcaram profundamente a convivência com o arcebispo.

 

“Essa simplicidade, essa espontaneidade, essa proximidade que ele permitia que existisse”, afirmou.

 

A despedida dos irmãos do Lar Sacerdotal

Os atos fúnebres começaram ainda na segunda-feira, 21 de setembro, com uma celebração na capela do Seminário São José, em Gravataí. A missa foi celebrada por Dom Juarez Albino Destro, com a concelebração de Dom Bertilo Morsch, e contou com a presença dos padres residentes do Lar Sacerdotal.

 

Nos últimos anos, Dom Dadeus viveu no Lar Sacerdotal, onde permaneceu próximo de outros presbíteros idosos e enfermos.

 

Dom Juarez destacou a emoção dos colegas de ministério ao se despedirem do arcebispo emérito.

 

“Nesses últimos anos ele estava lá no Lar Sacerdotal, e foi bonito os colegas estarem ali se despedindo dele, um colega de ministério”, afirmou.

 

Para Dom Juarez, a despedida também trouxe saudade, mas permanece a memória do testemunho deixado por Dom Dadeus.

 

“Todos que conheceram Dom Dadeus, na sua simplicidade e na sua humildade, ficarão com saudades. Mas é aquilo que ele mesmo disse: ele está agora na eternidade. Deixou esse legado para nós e nós faremos sempre memória feliz, uma memória feliz de Dom Dadeus.”

 

O legado de um homem que escreveu 51 livros

Além do ministério pastoral, a produção intelectual foi uma das marcas da trajetória de Dom Dadeus. Professor de Filosofia, Teologia e Direito Canônico, ele deixou uma extensa produção bibliográfica.

 

Dom Juarez destacou que Dom Dadeus publicou 51 livros, abordando diferentes temas e procurando relacionar conhecimento, fé e reflexão sobre a vida humana.

 

Entre suas últimas obras, uma reflexão sobre o tempo chamou a atenção de Dom Juarez.

 

No livro, Dom Dadeus apresenta dez maravilhas da natureza e coloca o tempo como a décima delas. A partir daí, desenvolve uma reflexão sobre as diferentes etapas da existência humana.

 

O primeiro tempo seria o da gestação, os nove meses que antecedem o nascimento. A pergunta que ele propõe é se esse período é suficiente. E responde que sim: é o tempo necessário para nascer.

 

Depois vem o tempo da vida, aquele marcado pelos dias, pelos anos e pela passagem cronológica da existência. Dom Dadeus recorda que, segundo a reflexão apresentada na obra, esse período poderia chegar a 120 anos. “Então ele quase chegou lá, morreu com 90”, observou Dom Juarez.

 

Mas a reflexão vai além da duração da vida. Para Dom Dadeus, os anos vividos são também um tempo de preparação para compreender a eternidade. “Ele faz a mesma pergunta: é um tempo o suficiente? E ele mesmo responde: sim, é um tempo o suficiente para a pessoa aprender o que é eternidade, o que seria, o que vem depois”, explicou Dom Juarez.

 

Para o bispo, essa reflexão é apenas um exemplo entre tantos outros temas desenvolvidos por Dom Dadeus ao longo de sua produção intelectual. “Ele abordava várias temáticas”, destacou, lembrando sua formação e atuação como professor de Filosofia, Teologia e Direito Canônico.

 

Ao recordar os 13 anos de Dom Dadeus à frente da Arquidiocese de Porto Alegre, Dom Juarez relacionou a passagem do tempo à própria trajetória do arcebispo. “Ele ficou 13 anos na nossa Arquidiocese, um tempo o suficiente, para usar as palavras dele, para nos ensinar muitas coisas boas”, afirmou.

 

A frase resume, para Dom Juarez, o legado deixado por Dom Dadeus à Igreja local: um testemunho marcado pelo estudo, pela oração, pela simplicidade, pelo serviço pastoral e pela reflexão sobre a fé e a existência humana.

 

Sob as abóbadas da Catedral

Depois da celebração no Seminário São José, o corpo de Dom Dadeus foi transladado para a Catedral Metropolitana de Porto Alegre. No templo, foi celebrada a primeira missa, presidida por Dom Darley Kummer e concelebrada por Dom Odair Miguel.

 

Foi também na Catedral que se realizou a Missa de Exéquias, reunindo bispos, padres, autoridades, familiares, amigos e fiéis.

 

Sob as mesmas abóbadas onde tantas vezes celebrou como arcebispo metropolitano, Dom Dadeus recebeu as últimas homenagens da Igreja à qual dedicou grande parte de sua vida.

 

Ao final da celebração, seus restos mortais foram sepultados no interior da Catedral Metropolitana, junto aos bispos que fizeram parte da história da Arquidiocese de Porto Alegre.

 

A despedida encerra a caminhada terrena de Dom Dadeus Grings, mas sua presença permanece na memória daqueles que conviveram com ele, nos padres que ajudou a formar, nas comunidades que acompanhou, nas iniciativas pastorais que ajudou a construir e nas páginas que escreveu ao longo de sua vida.

 

Sua trajetória deixa à Igreja de Porto Alegre e ao Rio Grande do Sul o testemunho de um pastor dedicado à oração, ao estudo e ao serviço, cuja vida foi marcada pela busca constante de compreender e anunciar a fé.

 



Autor:
Greice Pozzatto / Jornalista e Assessora de Comunicação da Arquidiocese de Porto Alegre

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