18/08/2026
No dia em que são celebrados os 115 anos do nascimento de Aldo Locatelli, sua filha, Cristiana Locatelli, esteve em Porto Alegre para visitar alguns dos espaços que preservam a memória e a obra do artista. A visita ocorreu também durante a Semana Estadual do Patrimônio Histórico e Cultural, período dedicado à valorização e à preservação da história e da cultura do Estado.
Na Catedral e na Cúria Metropolitana de Porto Alegre, Cristiana foi recebida pelo arquiteto Lucas Volpatto, responsável pelo restauro da Cúria, e por sua equipe, formada pela arquiteta Gabrielly Pederiva e pelo restaurador-conservador Manuel Fernandez, que acompanharam a visita.
Um reencontro
A visita vai além do conhecer o patrimônio deixado pelo pai, a presença de Cristiana na capital gaúcha representa uma oportunidade de reencontrar a história do pai e, por meio de sua produção artística, conhecer mais profundamente o artista que existia além da figura paterna que ela guarda na memória.
Aldo Daniele Locatelli nasceu em Villa d’Almè, na Itália, em 18 de agosto de 1915. Em 1948, chegou ao Rio Grande do Sul a convite de Dom Antônio Zattera, então bispo de Pelotas, para realizar pinturas na Catedral São Francisco de Paula.
Ao longo dos anos, Locatelli tornou-se um dos nomes mais importantes da pintura mural no Estado. Deixou obras em igrejas, prédios públicos e outros espaços e, em Porto Alegre, também atuou como professor, influenciando gerações de artistas. Morreu na capital gaúcha em 3 de setembro de 1962, aos 47 anos.
Para Cristiana, a busca pelo legado de Locatelli tornou-se, assim, uma forma de compreender melhor sua trajetória e a dimensão de sua produção artística. “Muito orgulho de ser filha desse gênio que foi meu pai e eu estou buscando isso. Estou buscando conhecer o artista. Porque quando o pai faleceu, eu tinha 9 anos, então eu tenho a memória do pai e não do artista”, conta.
Uma lembrança entre os anjos
A passagem pela Catedral Metropolitana de Porto Alegre despertou uma lembrança especialmente afetiva. Ainda criança, Cristiana esteve no templo acompanhada do pai. Diante das pinturas, recordou o momento em que Locatelli lhe contou que ela estava representada entre os anjos.
“Quando eu entro e vejo as obras do meu pai, eu fico impactada, porque eu me sinto muito pequenininha diante da grandiosidade de tudo que ele fez”, relata.
Décadas depois, a lembrança continua viva. “Quando eu entro aqui na catedral, que eu vim pequena com o meu pai e quando o meu pai disse que eu era o anjo que tá de amarelo aqui no altar, então eu me lembro isso como se fosse hoje”, recorda.
Segundo Cristiana, a presença da família nas pinturas era uma característica de Locatelli. Ela, o irmão e a mãe aparecem em diferentes trabalhos do artista. “Era uma característica dele, então é uma emoção muito grande, mas é uma busca que eu tô fazendo pra tentar conhecer melhor esse artista e o orgulho de ser filha dele.”
Uma busca pelo legado
A visita a Porto Alegre integra uma caminhada que Cristiana vem realizando para reencontrar a produção artística do pai. No ano passado, ela percorreu diferentes cidades do interior do Rio Grande do Sul, revisitando obras públicas e também trabalhos particulares preservados por famílias. “Eu conheço todas as obras desde pequena, foi uma coisa que a mãe sempre quis que eu e meu irmão tivéssemos conhecimento”, explica.
Entre tantos trabalhos, Cristiana evita escolher uma única obra como favorita. Há, entretanto, um conjunto que considera especialmente marcante: a decoração da Igreja de São Pelegrino, em Caxias do Sul, considerada uma das grandes realizações de Locatelli e sua obra-prima. “Eu não vou dizer preferida, mas eu vou dizer assim, o conjunto da obra mais impactante dele realmente é a São Pelegrino, em Caxias do Sul”, afirma.
Para ela, a Via-Sacra de São Pelegrino ocupa um lugar especial porque, naquele trabalho, o pai conseguiu expressar de maneira particularmente livre aquilo que sentia e acreditava. Na Via Sacra, diz ela: “meu pai não aceitou ser limitado por nada, ele pintou como ele sentia e como ele enxergava e o que ele acreditava, que foi o último momento de Jesus Cristo”, explica, enfatizando que para ela, esta “é a obra máxima dele.”
Memória que permanece
Depois da passagem pela Catedral, Cristiana conheceu também as dependências da Cúria Metropolitana. No local, teve contato com a exposição permanente Episcopus e com o retrato de Dom Vicente Scherer, pintado por seu pai. A obra, um óleo sobre tela realizado por Locatelli, encontra-se atualmente na Cúria Metropolitana de Porto Alegre.
Aos 115 anos de seu nascimento, Aldo Locatelli permanece presente na paisagem cultural e religiosa do Rio Grande do Sul. Seu legado pode ser encontrado nas igrejas, espaços públicos e instituições que preservam suas obras.
Para Cristiana, entretanto, esse legado tem ainda outra dimensão: é a possibilidade de pouco a pouco, conhecer o artista que existia dentro do pai que ela guarda na memória.
A menina que perdeu o pai aos nove anos volta, décadas depois, a encontrá-lo nas paredes, nos personagens, nos rostos e nas grandes cenas que ele pintou. E, entre tantas figuras criadas pelo artista, uma ganha significado especial: a filha que ele eternizou como um anjo, na Catedral Metropolitana de Porto Alegre.