23/10/2026
Localizado em Gravataí, o espaço acolhe presbíteros idosos e sacerdotes em recuperação de saúde, oferecendo assistência especializada, convivência e acompanhamento espiritual.
Fundado em 7 de agosto de 1989, o Lar Sacerdotal da Arquidiocese de Porto Alegre é um espaço dedicado ao acolhimento e ao cuidado de sacerdotes idosos e de padres que necessitam de acompanhamento durante tratamentos de saúde. Localizado junto à Casa de Retiros São José, em Gravataí, o lar recebe presbíteros da Arquidiocese de Porto Alegre e das dioceses de Montenegro e Osório, oferecendo um ambiente de segurança, convivência e fraternidade.
O Lar Sacerdotal é uma casa onde os padres encontram apoio para viver uma nova etapa de suas trajetórias, preservando os vínculos de amizade, a vida comunitária e a espiritualidade que acompanham o ministério sacerdotal.
Atualmente, a instituição é dirigida pelo padre Aluísio Negrete Cabreira, que destaca o caráter familiar do espaço e a importância de uma rotina organizada para o bem-estar dos residentes. “Temos a nossa casa, a casa do Lar Sacerdotal. Ela tem uma estrutura de uma casa geriátrica, mas é a nossa casa”, explica o diretor. Segundo ele, a rotina inclui horários para as refeições e para as orações, além de uma equipe responsável pelo funcionamento da instituição e pelo atendimento às necessidades dos sacerdotes.
Assistência especializada e qualidade de vida
Para garantir o atendimento adequado aos sacerdotes, o Lar Sacerdotal conta com uma equipe multidisciplinar formada por profissionais como enfermeiro, fisioterapeuta e nutricionista, além de técnicos de enfermagem e cuidadores.
O acompanhamento é organizado de acordo com as necessidades de cada padre, considerando seu histórico de saúde e as particularidades de cada situação. O trabalho conjunto dos profissionais contribui para oferecer segurança, bem-estar e melhores condições de recuperação.
De acordo com o Enfermeiro Ivan, o acompanhamento pode começar antes mesmo da chegada do sacerdote à instituição. Dessa forma, a equipe consegue conhecer suas necessidades e preparar o atendimento necessário. “Isso traz para eles uma segurança muito grande. Quando eles vêm, já têm um histórico, sentem-se acolhidos”, afirma ele, ao destacar a importância da atuação integrada dos profissionais.
A estrutura permite que o lar atenda tanto sacerdotes que passam a residir permanentemente no local quanto aqueles que precisam permanecer por determinado período, especialmente durante a recuperação de procedimentos cirúrgicos ou outros tratamentos de saúde.
Uma experiência que inspirou outras dioceses
Ao longo de sua história, o Lar Sacerdotal da Arquidiocese de Porto Alegre também se tornou referência para outras dioceses e arquidioceses do Brasil. A experiência, iniciada no final da década de 1980, contribuiu para demonstrar a importância de espaços destinados ao acolhimento de sacerdotes em etapas de maior fragilidade.
Dom Jaime Cardeal Spengler ressalta que a iniciativa de Porto Alegre esteve entre as primeiras experiências desse tipo no país e serviu de inspiração para outras Igrejas particulares. “Muitas outras dioceses depois se espelharam na experiência aqui de Porto Alegre”, destaca. Para ele, a existência de uma estrutura como essa manifesta a importância de oferecer segurança aos padres diante dos desafios que podem surgir com o envelhecimento e a necessidade de acompanhamento médico.
O arcebispo também chama a atenção para o significado desse cuidado na vida dos sacerdotes, que, depois de anos dedicados ao serviço da Igreja e das comunidades, podem precisar de apoio para enfrentar as limitações próprias da idade ou de problemas de saúde.
Um lugar de acolhida nos momentos de fragilidade
A importância do Lar Sacerdotal também é reconhecida por Dom Jaime Khol, bispo da Diocese de Osório, que, no dia da visita da reportagem, estava no local. Ele relata que já permaneceu na instituição em duas ocasiões, durante períodos de recuperação após cirurgias, e recorda que outros padres da diocese também receberam atendimento na casa.
Para o bispo, o lar representa uma providência importante para a Igreja, pois garante aos sacerdotes um lugar onde podem contar com profissionais preparados e com o suporte necessário nos momentos de maior fragilidade.
“Certamente uma casa abençoada, porque as pessoas fragilizadas, é sempre um momento delicado das suas vidas, e ter alguém com quem possam contar, além de profissionais, agiliza e facilita muita coisa”, afirma.
O testemunho evidencia a importância de uma estrutura que não se limita ao atendimento das necessidades físicas. A presença de outros sacerdotes, a convivência fraterna e a possibilidade de compartilhar experiências também contribuem para tornar esse período mais tranquilo.
O cuidado construído diariamente
O funcionamento do Lar Sacerdotal depende também da dedicação dos profissionais que acompanham os padres no cotidiano. Entre eles está Derli Antônio Venturini, que trabalha na instituição há cerca de 15 anos.
Depois de quase três décadas de atuação na indústria, Derli iniciou uma nova etapa profissional após a aposentadoria, passando a trabalhar em um lar de idosos. A experiência o aproximou de uma realidade diferente daquela que conhecia na juventude, quando, vivendo no interior “Eu conhecia só o padre da minha paróquia. Hoje, estou aqui, no meio dos padres”, conta.
Seu trabalho integra uma rede de pessoas que contribuem para manter a casa organizada e acolhedora, garantindo assistência e atenção às necessidades dos residentes.
É nessa dedicação cotidiana, muitas vezes expressa em gestos simples, que o cuidado ganha forma e se torna parte essencial da vida comunitária.
Um lar para quem precisa de cuidado ou está de passagem
A permanência no Lar Sacerdotal assume diferentes significados conforme a trajetória e a necessidade de cada padre. Para alguns, a instituição se torna residência definitiva. Para outros, é um lugar de passagem, onde encontram condições para se recuperar e, posteriormente, retornar às atividades pastorais.
É o caso do padre Guido Staudt, que se recuperava de uma cirurgia no joelho e realiza sessões de fisioterapia antes de voltar à paróquia onde atua como padre auxiliar, em Bom Princípio.
Durante o período de recuperação, ele encontra no lar o suporte necessário para restabelecer a saúde e se preparar para retomar o trabalho pastoral.
Outro sacerdote, que está se recuperando na instituição, é o Pe. Amadeus Canellas. Ele resume o sentimento de pertencimento ao descrever o espaço como um lar, onde os colegas são também irmãos. A convivência, segundo ele, é marcada pela tranquilidade e pela alegria de compartilhar a vida com outros padres.
Essas experiências mostram que o Lar Sacerdotal acolhe diferentes realidades, respeitando o momento vivido por cada sacerdote e oferecendo condições para que cada um atravesse essa etapa com dignidade.
A oração permanece no centro da rotina
Mesmo com as mudanças próprias do envelhecimento e as necessidades de acompanhamento médico, a espiritualidade continua ocupando um lugar central no cotidiano dos sacerdotes.
A programação diária inclui a celebração da Eucaristia, momento que reúne os padres em oração e mantém viva a dimensão espiritual de uma vocação construída ao longo de décadas de serviço à Igreja.
Para o padre Cláudio Finkler, que soma 53 anos de sacerdócio e reside no local, a celebração é um momento de oração e comunhão entre os irmãos no ministério. Ao falar sobre a missa celebrada pelos próprios sacerdotes, ele comenta, com bom humor: “A missa é tudo padres. É nossa a missa”.
A fé, cultivada ao longo de toda a vida, continua sendo uma referência fundamental nessa etapa da caminhada. A oração individual e comunitária ajuda a preservar a identidade sacerdotal e a manter o vínculo com a missão que marcou a história de cada um.
Histórias de uma vida dedicada à Igreja
Por trás de cada sacerdote acolhido no lar existe uma trajetória singular, construída nas comunidades por onde passou, nas pessoas que acompanhou e nos desafios enfrentados durante o ministério.
O Pe. Cláudio Finkler, recorda com carinho os 44 anos em que atuou em uma pequena paróquia no interior da região de Montenegro. Ao falar dessa experiência, expressa a alegria de ter vivido tantos anos junto à comunidade. “Eu fui muito feliz, muito, muito feliz”.
A lembrança revela a profundidade dos vínculos construídos ao longo do ministério e a importância das comunidades na vida de cada sacerdote. Mesmo quando a idade ou as condições de saúde exigem uma mudança na rotina, essas histórias permanecem vivas, assim como o compromisso espiritual que orientou suas escolhas.
Uma missão que continua de outra forma
O Lar Sacerdotal da Arquidiocese de Porto Alegre representa uma expressão concreta do cuidado da Igreja por aqueles que dedicaram a vida ao serviço do povo de Deus. Em um ambiente de acolhida, amizade e assistência especializada, os sacerdotes encontram condições para viver a velhice ou atravessar períodos de recuperação com segurança e dignidade.
Depois de tantos anos dedicados às comunidades, a missão dos padres continua, ainda que de uma maneira diferente. Permanece na presença, nas histórias compartilhadas, nas orações e no testemunho de fé.
No Lar Sacerdotal, o cuidado oferecido aos sacerdotes reafirma uma dimensão essencial da vida cristã: aqueles que dedicaram a vida a cuidar dos outros também precisam ser cuidados. E, entre a assistência diária, a convivência fraterna e a celebração da Eucaristia, a vocação continua a dar frutos, sustentada pela fé, pela esperança e pelo amor à Igreja.