22/07/2026
Tese premiada investiga a participação de padres e bispos gaúchos em favor da libertação de pessoas escravizadas e destaca personagens pouco conhecidos da história do Rio Grande do Sul
O padre Fabiano Glaeser dos Santos, do clero da Arquidiocese de Porto Alegre, atualmente em missão na Diocese de Osório, onde é pároco da Paróquia Santa Teresinha de Santo Antônio da Patrulha, é o vencedor do Prêmio SOTER/Paulinas de Teses "Maria Afonso Ligório", reconhecimento concedido à melhor tese do ano na área de Teologia e Ciências da Religião no Brasil. A pesquisa foi desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Teologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), sob orientação do professor Roberto Hofmeister Pich.
Intitulada "Jesus Cristo, quanto à sua humanidade, tem a mesma carne do homem negro: as ações da Igreja Católica riograndense em prol da libertação dos escravizados”, a tese investiga a atuação da Igreja Católica no Rio Grande do Sul diante da escravização, com especial atenção às iniciativas de padres e bispos que defenderam a libertação da população escravizada.
Uma pesquisa que nasceu no mestrado
O tema da tese, conforme conta o padre, surgiu a partir de uma investigação anterior, realizada durante o mestrado, quando estudou a vida e a obra de Dom Sebastião Dias Laranjeiras, segundo bispo da Diocese de São Pedro do Rio Grande do Sul, hoje Arquidiocese de Porto Alegre.
"Durante as leituras sobre a vida de Dom Sebastião descobrimos que ele atuou em prol da libertação dos escravizados. Isso deu o 'start' para a pesquisa do doutorado", explica.
Vozes da Igreja em defesa da abolição
Entre as principais descobertas do trabalho, padre Fabiano destaca a quantidade de membros do clero que se posicionaram publicamente contra a escravidão. "Me surpreendeu ver tantas vozes clericais posicionando-se firmemente contra a escravidão, e alguns inclusive atuando nos movimentos abolicionistas, entrando em conflito com os donos de escravos, atuando como verdadeiros profetas de uma causa mais que justa: o fim da escravização de seres humanos."
A pesquisa mostra que, em diferentes regiões do Brasil, padres e bispos atuaram de maneira discreta ou militante em favor da abolição. Entre eles, o sacerdote destaca Dom Antônio Ferreira Viçoso, bispo de Mariana entre 1844 e 1875.
No Rio Grande do Sul, dois nomes recebem atenção especial: Dom Sebastião Dias Laranjeiras e o cônego Augusto Joaquim de Siqueira Canabarro, pároco de Pelotas entre 1873 e 1890.
Segundo o padre, Canabarro teve papel decisivo no movimento abolicionista pelotense.
"Ele foi um dos fundadores do Clube Abolicionista de Pelotas, era um dos principais redatores do jornal A Voz do Escravo e temos notícias de pelo menos quatro sermões que escreveu sobre a abolição da escravidão", conta.
Igreja marcada por diferentes posições
Padre Fabiano explica que a pesquisa também procura compreender a complexidade da relação entre a Igreja Católica e a escravidão ao longo da história. Para ele, não é possível reduzir essa trajetória a uma única posição institucional. "A pesquisa ajudou a compreender que a Igreja é uma instituição multifacetada, onde convivem diversas tendências e pensamentos diversos sobre um mesmo tema."
Segundo o padre, a escravidão esteve profundamente enraizada nas culturas da Antiguidade, influenciando inclusive a interpretação de textos bíblicos. Passagens do Antigo Testamento regulamentam a escravidão, enquanto, no Novo Testamento, especialmente na Carta a Filêmon, São Paulo pede que Onésimo seja tratado como irmão, mas não solicita explicitamente sua libertação. Em outras cartas, o apóstolo exorta os senhores a tratarem bem seus escravos e estes a respeitarem seus senhores.
Esses textos, observa o padre Fabiano, serviram de fundamento para membros do clero que defendiam apenas um tratamento considerado "digno" aos escravizados, sem propor a extinção da escravidão.
Ao mesmo tempo, desde o início da escravidão no Brasil, surgiram vozes críticas dentro da própria Igreja. Também entre os papas houve posições distintas: alguns corroboraram o sistema escravista, enquanto outros o condenaram energicamente, como Paulo III e Gregório XVI. Portanto, dizer "que a Igreja Católica apoiou a escravidão é muito superficial; houve padres, bispos e leigos que apoiaram a escravidão, e houve padres, bispos e leigos que se posicionaram pelo fim da escravidão", reforça.
Um personagem esquecido pela história
Entre as contribuições da pesquisa está o resgate da memória do cônego Augusto Joaquim de Siqueira Canabarro, cuja atuação permaneceu praticamente esquecida durante mais de um século.
Padre Fabiano conta que iniciou a investigação concentrando-se em Dom Sebastião Dias Laranjeiras, mas encontrou, durante a pesquisa em jornais da época, um sermão do cônego, que mudaria os rumos do trabalho.
"Ele foi um achado. Comecei a pesquisa focando em Dom Sebastião e, em meio a artigos da época, encontrei um sermão do cônego. Desde então, ele tem sido um grande amigo", brinca.
Segundo o sacerdote, Canabarro foi um verdadeiro militante da causa abolicionista. "Ele foi um grande padre, que ficou esquecido por século e meio, e agora o professor Roberto e eu queremos colocá-lo de novo na cena. Escreveu artigos e sermões sobre esse assunto e entrou em choque com os charqueadores de Pelotas."
Reflexões para o presente
Além da contribuição histórica, a tese busca oferecer elementos para a reflexão da Igreja diante dos desafios atuais relacionados ao racismo e à promoção da dignidade humana. Segundo o padre Fabiano, o "racismo é uma das principais consequências da escravização dos africanos e seus descendentes. Apesar de tantas campanhas de conscientização e do endurecimento das leis, ainda vemos muitos casos de racismo, e não podemos ser inocentes e achar que no Brasil não há racismo".
Para o padre, conhecer a história da escravidão e da participação da Igreja na luta pela abolição pode ajudar a instituição a compreender seu papel nas iniciativas de combate ao racismo.
"A Igreja precisa tomar parte nas campanhas de combate ao racismo. Conhecer essa história pode ajudar a instituição a reconhecer seu lugar nas campanhas antirracistas", enfatiza.
O sacerdote acredita ainda que revisitar esse passado fortalece o compromisso cristão com a justiça social. "Conhecer o passado ajuda a entender o presente e planejarmos o futuro, de modo a não cometermos os mesmos erros. No caso da escravidão, conhecer sua história, suas dinâmicas, seus processos e suas causas nos faz compreender as dinâmicas contemporâneas de racismo, de exclusão e de desigualdades sociais, combatê-las e pensar em processos de superação dessas realidades", destaca.
Reconhecimento nacional
Para padre Fabiano, a conquista do Prêmio SOTER/Paulinas representa o reconhecimento de um trabalho árduo, iniciado há quase cinco anos e reforça a relevância da pesquisa produzida na PUCRS.
"É um prêmio de renome internacional, que premia a melhor tese de Teologia e Ciências da Religião do ano anterior. Ter a tese escolhida como a melhor de todos os programas de pós-graduação do Brasil mostra a relevância da pesquisa e que estamos no caminho certo", comemora.