23/04/2026
O Vaticano II tem sido um Concilio de mudanças na Igreja. Naqueles tempos fazia-se necessário Igreja se aproximar cada vez mais das diferenças culturais. Os surdos como diferença cultural fomos os mais beneficiados pelas grandes mudanças havidas com este Concilio.
Nós surdos já vínhamos de um período em que fomos considerados pessoas sem alma e que devíamos viver sob a colonização que nos impunha a língua pátria a todo custo, mesmo com violência,
O Vaticano II trouxe paz aos surdos, trouxe a mudança profunda na forma como a Igreja Católica entende a comunicação, a participação e a presença dos excluídos. Isso tem muito a ver com a aceitação de nossa Língua de Sinais Brasileira – Libras. A Libras que não é um recurso, mas uma língua completa, com gramática própria. Se com o Vaticano II a Igreja deve falar a língua do povo, e por isso aceita também a Libras, língua do povo surdo. Aceitar a Libras não é um favor, é uma exigência Pastoral.
A mudança na Igreja veio com Documentos como o Sacrossanctum Conciliun que trouxe princípios fundamentais:
· Valorização da comunicação mais acessível.
· Uso de línguas vernáculas, a Libras se inclui entre elas;
· Participação plena consciente e ativa de todos os fiéis;
Outro documento a Gaudium et Spes afirma a dignidade da pessoa humana e a validade de seu acesso à fé, aos sacramentos e à comunidade eclesial.
Isso abriu caminho para nossa participação eclesial “como surdos”, tanto assim que em 1987 nós já estávamos pedindo à CNBB para sermos aceitos entre as pastorais eclesiais como Pastoral do Surdo e sairmos da categoria de apenas catequisados assistidos mediante a ideia de inclusão.
As implicações pastorais de hoje, para as lideranças surdas são muitas. A Pastoral do Surdo está organizada pela CNBB no Brasil como parte de duas comissões especificas: a Pastoral Bíblico Catequética que no Regional Sul III tem como presidente Dom Jacinto Bergmann; e na Pastoral Sociotransformadora que tem como presidente Dom Silvio Guterres Dutra. Hoje nós surdos temos organização: a nível nacional com a CNBB; regional com os bispos citados; arquidiocesanas com Pe. Laênio e Pe. Joule Windson. A nível de paroquias, como na Igreja S. Pedro nos sentimos acolhidos sob as bençãos do Pe. Livio e da comunidade. Temos trabalhos específicos que nos colocam como evangelizadores entre nós: trabalhos de coordenação, de atividades nas comunidades católicas de surdos, catequese, formação de lideranças, retiros, romarias
O Tradutor e Intérprete de Libras - TILS atua na tradução. Ele é uma vocação eclesial que no dizer de Dom Juarez: “uma vocação de escuta, de ponte, de fidelidade, de serviço, de justiça”. A Igreja deve se servir de Intérpretes de Libras, uma vez que sua missão é inserir a Palavra, a vida nos sacramentos bem como, trabalhar a formação de agentes surdos a esta Pastoral. A missão do TILS é unir os dois mundos. Nós surdos devemos viver em nossa cultura e daí os dois mundos. Como os surdos vamos entender a mensagem que os ouvintes têm para transmitir se não ouvimos. Os surdos também queremos pregar o Evangelho. Mas muito das experiencias ancestrais nos trabalhos de evangelização não chegaram até nós, pois nossa língua era proibida. Atualmente a evangelização chega pela Libras. E tem motivado mudanças. Os surdos podemos evangelizar os surdos.
Se pensarmos como fica a Libras na Igreja? podemos lembrar da palavra de Jesus: “se estes se calarem as pedras gritarão” (Lc, 19,40). A Igreja tem o dever de abrir seus espaços.
Dia 16 maio é dia das comunicações, dia celebrado pala Igreja. Muito bom perguntar: Quem ainda permanece silenciado nas comunidades católicas pela falta de uso de suas línguas?
Autoria: Gladis Perlin e Marcos Pulhieze