Arquidiocese de Porto Alegre reúne imprensa para debate sobre comunicação e inteligência artificial

13/05/2026

Arquidiocese de Porto Alegre reúne imprensa para debate sobre comunicação e inteligência artificial

A Arquidiocese de Porto Alegre promoveu, nesta semana, um café da manhã com profissionais da imprensa da capital gaúcha dentro da programação da Semana Nacional da Comunicação, alusiva ao 60º Dia Mundial das Comunicações Sociais. O encontro, organizado pela Assessoria de Comunicação da Arquidiocese e pela Pastoral da Comunicação (Pascom), reuniu jornalistas, comunicadores e representantes de veículos de imprensa para um momento de diálogo e reflexão sobre os desafios contemporâneos da comunicação, especialmente diante do avanço da inteligência artificial e das novas tecnologias digitais.

 

Participaram do encontro o arcebispo metropolitano de Porto Alegre, Dom Jaime Spengler, que também é presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB e do Conselho Episcopal Latino-Americano e Caribenho, e Dom Juarez Albino Destro, bispo referencial para a Comunicação na Arquidiocese e no Regional Sul 3 da CNBB.

 

Durante o encontro, os bispos apresentaram a mensagem do Papa para o 60º Dia Mundial das Comunicações Sociais, que neste ano propõe uma reflexão sobre os impactos das novas tecnologias e da inteligência artificial na sociedade e nas relações humanas.

 

Na abertura da conversa, Dom Juarez contextualizou a origem do Dia Mundial das Comunicações Sociais, criado após o Concílio Vaticano II, a partir do decreto Inter Mirifica, documento que destacou a importância da comunicação para a vida da Igreja e da sociedade.

 

Segundo o bispo, a celebração ocorre tradicionalmente na solenidade da Ascensão do Senhor, estabelecendo uma ligação simbólica entre “céu e terra”, entre o humano e o divino, através da comunicação. “O Dia Mundial das Comunicações nasceu justamente dessa compreensão da comunicação como ponte, como relação. Já estamos vivendo a 60ª edição desta mensagem, um marco importante para a Igreja”, afirmou.

 

Dom Juarez também destacou o alerta do Papa sobre os riscos da desumanização provocada pelo uso inadequado das novas tecnologias. “A preocupação do Papa vai além da paz, que continua sendo um tema central. Ele também faz um alerta muito forte sobre a inteligência artificial e sobre as tecnologias que, se não forem bem conduzidas, podem acabar desumanizando as relações”, observou.

 

O bispo ressaltou ainda que a Igreja acompanha atentamente os debates sobre inteligência artificial e os impactos sociais, educacionais e culturais das plataformas digitais. Segundo ele, o tema já vinha sendo abordado em mensagens anteriores do Papa Francisco, especialmente nas mensagens do Dia Mundial da Paz e do Dia Mundial das Comunicações de 2024. “A Igreja não é contra a tecnologia. Pelo contrário. O desafio é orientar caminhos, promover consciência e alertar para os riscos antes que eles se agravem”, declarou.

 

Preservar rostos e vozes humanas

Ao aprofundar a reflexão sobre os impactos antropológicos das novas tecnologias, Dom Jaime afirmou que a comunicação ocupa um lugar central na experiência da fé cristã. “Para nós, na linguagem da fé, Jesus é a comunicação do Pai”, destacou o arcebispo, ao explicar que a missão da Igreja sempre esteve ligada ao diálogo, ao encontro e à transmissão da esperança.

 

Dom Jaime chamou atenção para uma das expressões centrais da mensagem do Papa para este ano: “preservar vozes e rostos humanos”. Segundo ele, o Dia Mundial das Comunicações Sociais representa “uma oportunidade privilegiada para destacar o lugar, a importância e a dignidade da comunicação no convívio humano”.

 

“O risco presente nessas tecnologias é esconder o nosso rosto e silenciar a nossa voz. A voz e o rosto expressam uma identidade que não pode ser apagada”, afirmou.

 

O arcebispo ressaltou ainda que os avanços tecnológicos trazem benefícios importantes, especialmente em áreas como medicina, educação e acesso à informação, mas alertou que essas ferramentas devem permanecer sempre a serviço da dignidade humana. “O que está em jogo não é apenas uma questão tecnológica. O desafio é antropológico. O que está em questão é o próprio ser humano”, enfatizou.

 

Durante a coletiva, os bispos também refletiram sobre os impactos da desinformação, da manipulação emocional e do enfraquecimento do pensamento crítico nas redes sociais e nos ambientes digitais. “Muitas vezes é difícil distinguir o que é real do que é manipulação”, observou Dom Jaime, ao comentar os desafios enfrentados diariamente pelo trabalho jornalístico.

 

O arcebispo também alertou para o aumento da agressividade social e da polarização, fenômenos que, segundo ele, são potencializados pela dinâmica das mídias digitais. “O futuro depende da nossa capacidade de manter vivos o pensamento crítico, a criatividade, a arte e o discernimento”, afirmou.

 

Comunicação, verdade e aproximação com a imprensa

Outro ponto debatido durante o encontro foi a necessidade de diálogo entre Igreja, sociedade civil, instituições públicas e empresas responsáveis pelas plataformas digitais. Dom Juarez destacou que já existem grupos de trabalho, comissões e iniciativas nacionais e internacionais discutindo os impactos éticos e sociais da inteligência artificial. “A responsabilidade é de todos. Igreja e sociedade caminham juntas. A Igreja somos todos nós”, reforçou.

 

O encontro também foi marcado pela participação e pela escuta dos profissionais da comunicação presentes no café da manhã promovido pela Arquidiocese de Porto Alegre.

 

Para o jornalista Thomás Guarese, o momento representou acolhida, diálogo e esclarecimento sobre os caminhos que a Igreja vem adotando diante das transformações tecnológicas. “Meu sentimento foi de acolhida, mas também de esclarecimento, de perceber quais são os caminhos que a Igreja está tomando e como o Papa está olhando para essa revolução que é a inteligência artificial”, afirmou.

 

Ele também destacou a importância de ampliar iniciativas de aproximação entre Igreja e comunicadores. “Isso ajudaria muito para que nós pudéssemos nos familiarizar entre si e começar a caminhar também num rumo onde todos podem chegar no mesmo caminho”, disse.

 

Já Estela Faria ressaltou a relevância do debate em um cenário marcado pelos avanços tecnológicos e pelos desafios da desinformação. “Estamos vivendo numa era tecnológica, de inteligência artificial, e não sabemos até que ponto isso é bom ou ruim. É bom para a informação, mas também traz o problema das fake news e da desinformação”, observou.

 

Segundo ela, iniciativas como essa fortalecem o compromisso dos comunicadores com a informação responsável e a busca pela verdade. “Precisamos entender também esse lado de passar a informação correta, a fonte correta, e ir atrás realmente do que importa, que é a educação e a informação”, destacou.

 

Para Marcelo Gonzatto, o encontro contribuiu para aproximar a Igreja dos profissionais da imprensa e aprofundar o diálogo sobre temas atuais. “É muito importante para fazer uma aproximação entre a Igreja e as redações dos jornais, rádios e TVs, para entendermos melhor o que está se passando internamente na Igreja e o que ela pensa sobre temas atuais”, afirmou.

 

Marcelo também destacou que os debates sobre inteligência artificial, desinformação e verdade aproximam o trabalho jornalístico da missão da Igreja. “Um dos preceitos bíblicos mais famosos é justamente que a verdade vos libertará. Isso a gente tem em comum entre a Igreja Católica e o jornalismo”, concluiu.

 

Mais do que uma celebração da data, o café da manhã promovido pela Arquidiocese de Porto Alegre tornou-se um espaço de reflexão sobre o papel da comunicação em tempos de rápidas transformações tecnológicas. Em meio aos desafios impostos pela inteligência artificial e pelas novas plataformas digitais, a mensagem deixada pelos participantes foi clara: a tecnologia deve servir à vida, à verdade e à dignidade humana, jamais substituir aquilo que caracteriza o ser humano em sua essência.

 

Fotos: Nelson S. Pereira / Ascom

 



Autor:
Greice Pozzatto

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