31/03/2026
Mais de duzentos professores, diretores e coordenadores pedagógicos das escolas católicas da Zona Norte de Porto Alegre participaram, no último sábado, no teatro da Escola Santa Doroteia, de um encontro de formação sobre o tema da Campanha da Fraternidade de 2026.
O evento, que teve assessoria do coordenador da Dimensão Sociotransformadora da Arquidiocese, o jornalista Elton Bozzetto, e do antropólogo e professor universitário Renato Ferreira Machado, foi prestigiado pelo bispo auxiliar Dom Darley Kummer, que acompanha a Dimensão da Cultura e Educação da Arquidiocese de Porto Alegre.
O propósito do encontro foi motivar a abordagem do tema em sala de aula, ampliando o compromisso dos alunos e da comunidade escolar com a garantia de moradia digna para as famílias sem teto.
Bozzetto afirmou que a Campanha da Fraternidade, realizada durante o período quaresmal, convida as pessoas a revisarem suas prioridades de vida, assumindo o compromisso de superar o drama que afeta mais de seis milhões de famílias no país: a falta de moradia. “A Campanha deste ano propõe uma ampliação conceitual. O déficit habitacional não é formado por números abstratos, mas por rostos, histórias e vidas marcadas pela insegurança.”
Ele destacou que a reflexão deste ano apresenta essa ampliação conceitual: a moradia digna não é apenas uma casa, mas envolve sua conexão com equipamentos e serviços públicos, como rede de saneamento, água potável, energia elétrica, além do acesso a escola, rede de saúde, transporte público e lazer para a família.
“Temos hoje no país 6,2 milhões de famílias que não têm acesso à moradia e mais de seis milhões de imóveis desocupados. A mercantilização do direito de morar deixa muita gente sem casa e muitas casas sem gente.” Bozzetto desafiou professores e escolas a assumirem a proposta da CNBB de conhecer em profundidade a situação do déficit habitacional em suas regiões de atuação e de realizar um gesto concreto, como construir ou reformar uma casa para uma família sem teto ou que vive em moradias precárias.
O encontro foi realizado em clima de espiritualidade quaresmal, refletindo sobre o sentido da moradia como um lugar de relações e um ambiente que promove a dignidade e a cidadania. Sem a casa, a família não tem endereço, não tem CEP e não tem condições de construir relações fraternas e sólidas.
O professor Renato reforçou que a pessoa se constrói a partir do lugar em que habita. Por isso, organizar o lugar de viver significa criar as condições para que as pessoas possam crescer em sua dignidade.
“Uma das maiores violências é a perda ou a falta de acesso ao lugar de habitação, porque isso exige adaptação a outros espaços. Perdem-se as referências, as relações, as cores da casa, os móveis, as fotos, a história.” Machado destacou que, em algumas culturas, o exílio ou a migração são vistos como uma espécie de maldição.
Por isso, ele reforçou o conceito bíblico da terra e da moradia como herança divina, dada a todos. “A terra prometida é a promessa de um lugar para se habitar. Não era permitido que, nesse lugar, outras formas de escravidão acontecessem.”
Ele acrescentou que o desafio da educação é recuperar o conceito da lei do inquilinato, segundo o qual a terra pertence a Deus, não a uns ou a outros, mas é um dom do Senhor.