“Onde estás?”

17/06/2021

Nestes tempos complexos, marcado por contradições variadas, e necessitado da promoção espaços e tempos de diálogo, vale a pena recordar uma deliciosa história contada por Martin Buber:

“Um certo rabino foi caluniado junto às autoridades de sua fé; a acusação dizia que sua doutrina era herética e sua conduta condenável. Por isso, foi lançado no cárcere. Um dia, enquanto aguardava o momento de comparecer junto ao juiz, o carcereiro entrou na cela. Diante da face firme e imóvel do rabino que concentrado não havia percebido a presença desse homem, o carcereiro intuiu a qualidade humana desse prisioneiro.

Começou a conversar com ele e não teve medo de lançar questões difíceis que encontrou lendo as Escrituras. Por fim perguntou:
- Como se deve interpretar que Deus onisciente pergunte a Adão: ‘onde estás’?
- Crês - perguntou o rabino - que a Escritura é eterna e que abraça todos os tempos, todas as gerações e todos os indivíduos?
- Sim, creio! - respondeu o carcereiro.
- Pois bem - disse o rabino - em todos os tempos Deus interpela cada homem: ‘Onde estás no teu mundo? Dos dias e anos concedidos a ti, já se passaram muitos: nesse tempo, tu, até onde chegaste no teu mundo?’. Deus disse, por exemplo: ‘Eis que já se passaram 46 anos de tua vida? Onde te encontras?’

Ao ouvir o número exato de sua idade, o carcereiro mal e mal pode se controlar; pousou a mão sobre o ombro do rabi e disse: ‘Bravo’, mas seu coração tremia.”

A história é simples. No entanto, sugere reflexão. O rabino não explica a passagem bíblica, mas a usa para lançar uma admoestação e um questionamento ao carcereiro; ele reprova o modo como ele havia vivido até aquele momento, isto é, sem sinceridade, superficialmente e sem responsabilidade. A pergunta objetiva do carcereiro recebe uma resposta pessoal, ou melhor, uma admoestação de caráter pessoal.

Há no ser humano a tendência a se esconder, pois todo homem, à semelhança de Adão, tende a se retrair diante da responsabilidade na vida. Escondendo-se do vulto de Deus, ele tende a cair na falsidade. Contudo, Aquele que tudo vê, vigia! O ser humano não pode esconder-se de Seu olhar. Escondendo-se de Deus, o ser humano esconde-se de si mesmo.

Esta bela história contada por M. Buber não estaria apontando uma inclinação atualmente presente em amplos setores da sociedade?



Autor:
Por Dom Jaime Spengler, arcebispo metropolitano e primeiro vice-presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

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