07/01/2026
A solenidade da Epifania do Senhor, que no Brasil celebramos no Domingo próximo a 6 de janeiro, ocupa lugar central no Ciclo do Natal, manifestando o mistério de Cristo como luz destinada a todos os povos. O termo epifania provém do grego ἐπιφάνεια (epipháneia), que significa “manifestação”, “aparecimento glorioso”.
Na tradição cristã antiga, especialmente no Oriente, a Epifania não se limitava a um único evento, mas englobava três grandes manifestações do Senhor: a adoração dos Magos, o Batismo no Jordão e o primeiro sinal em Caná da Galileia. Essas três epifanias revelam progressivamente a identidade de Jesus como Messias, Filho de Deus e Esposo da nova Aliança.
Na Igreja antiga, sobretudo nos séculos III e IV, a Epifania era celebrada como uma única grande solenidade da manifestação do Senhor. No Oriente cristão, especialmente no Egito e na Síria, a Epifania era considerada mais antiga que o Natal e celebrava simultaneamente o nascimento de Cristo, seu batismo e a revelação de sua glória. São Clemente de Alexandria testemunha que algumas comunidades cristãs já celebravam a manifestação do Senhor no dia 6 de janeiro (Stromata, I,21).
Com o desenvolvimento do calendário litúrgico, sobretudo após a fixação do Natal em 25 de dezembro, a Igreja passou a distinguir as festas, mas manteve a unidade teológica das manifestações. A liturgia romana conserva essa tradição ao proclamar, na antífona do Magnificat das II Vésperas da Epifania: “Recordamos neste dia três mistérios: Hoje a estrela guia os magos ao presépio. Hoje a água se faz vinho para as bodas. Hoje o Cristo no Jordão é batizado para salvar-nos. Aleluia, aleluia.” Essa antífona expressa de modo sintético a teologia das três epifanias, articulando-as como um único mistério de revelação.
A primeira epifania é narrada em Mt 2,1-12: a visita dos Magos do Oriente. Trata-se da manifestação de Cristo aos gentios, representados por sábios estrangeiros que, guiados pela estrela, reconhecem no Menino o Rei-Messias. Mateus apresenta essa cena como cumprimento das profecias messiânicas, sobretudo Is 60,1-6 e Sl 72,10-11.
Teologicamente, os Magos simbolizam a humanidade em busca da verdade, iluminada pela graça. São Leão Magno afirma: “Que todos os povos, representados pelos Magos, adorem o Autor do universo; e que Deus seja conhecido não apenas na Judeia, mas em todo o mundo” (Sermão 31 sobre a Epifania).
Os Padres da Igreja interpretam os dons (ouro, incenso e mirra) de modo cristológico: ouro para o Rei, incenso para Deus e mirra para aquele que morrerá. Assim, já na infância, Cristo se manifesta como Rei, Deus e Salvador sofredor.
A segunda epifania ocorre no Batismo do Senhor (Mt 3,13-17; Mc 1,9-11; Lc 3,21-22). Aqui, a manifestação é trinitária: o Filho é batizado, o Espírito desce em forma de pomba e a voz do Pai proclama: “Este é o meu Filho amado”.
Na tradição oriental, esta epifania é central. São Gregório Nazianzeno afirma: “Cristo é iluminado; sejamos iluminados com Ele. Cristo é batizado; desçamos com Ele para subir com Ele” (Sermão 39, Sobre as Luzes).
O Batismo revela Jesus como o Servo messiânico anunciado por Isaías (Is 42,1) e inaugura sua missão pública. Ao entrar nas águas, Cristo santifica a criação e antecipa o mistério pascal, pois o Jordão torna-se símbolo da morte e da vida nova.
Do ponto de vista teológico-sacramental, os Padres veem nesse evento o fundamento do Batismo cristão. Santo Ambrósio afirma que Cristo “desce às águas não para ser purificado, mas para purificar as águas” (De sacramentis, I,1).
A terceira epifania é o primeiro sinal realizado por Jesus em Caná da Galileia (Jo 2,1-11). O evangelista João conclui: “Manifestou a sua glória, e os seus discípulos creram nele”. Trata- se de uma epifania dirigida inicialmente aos discípulos, revelando a identidade messiânica de Jesus no contexto simbólico das núpcias.
Os Padres interpretam Caná à luz da teologia nupcial: Cristo é o Esposo da nova Aliança. A transformação da água em vinho indica a superação da antiga Lei (representada pelas talhas de purificação) pela novidade da graça. Santo Agostinho comenta: “Aquele que transformou a água em vinho é o mesmo que todos os anos transforma a água da chuva em vinho nas videiras; mas aqui o fez como sinal” (Tratado sobre o Evangelho de João, 8,1).
Maria ocupa papel fundamental nessa epifania como mulher da fé e figura da Igreja, que aponta para Cristo e convida à obediência: “Fazei tudo o que Ele vos disser”.
As três epifanias não são eventos isolados, mas manifestações complementares do único mistério de Cristo. Na adoração dos Magos, Ele se revela aos povos; no Jordão, é revelado como Filho pelo Pai; em Caná, manifesta sua glória messiânica e nupcial. Juntas, essas epifanias expressam a universalidade da salvação, a revelação trinitária e a economia sacramental da Igreja.
A liturgia, ao conservar essa tríplice memória, nos convida a reconhecer Cristo como luz, Filho e Esposo, e a responderem com fé, conversão e missão. Celebrar a Epifania é, portanto, professar que a luz de Cristo continua a brilhar na história, chamando todos os povos à fé e à vida nova.
Marcelo Meireles Mito
Coordenador da Comissão Arquidiocesana de Liturgia