04/12/2025
Marcelo Meireles Mito
Coordenador da Comissão de Liturgia da Arquidiocese de Porto Alegre
O Tempo do Advento, período que inaugura o ano litúrgico, possui caráter escatológico e cristológico, orientando a comunidade cristã para a dupla vinda do Senhor: sua vinda histórica na carne e sua vinda gloriosa no fim dos tempos. O Ordo Lectionum Missae explicita essa tensão, afirmando que “o Advento é celebrado tendo simultaneamente em vista a primeira vinda do Filho de Deus entre os homens e a sua segunda vinda, quando vier com poder e glória” (OLM, n. 39). No Ano A, esse movimento teológico-pastoral é iluminado de modo particular pelo Evangelho de São Mateus, cuja perspectiva catequética sustenta uma compreensão profunda da identidade messiânica de Jesus e do chamado à vigilância.
A estrutura do Advento apresenta, nas duas primeiras semanas, um forte acento escatológico: a comunidade é convocada à esperança e à vigilância diante da vinda definitiva do Senhor. O Evangelho de Mateus, com seu estilo próprio, reforça essa dimensão. Logo no 1º Domingo do Advento (Mt 24,37-44), Jesus adverte: “Portanto, ficai atentos, porque não sabeis em que dia virá o vosso Senhor”. A vigilância, aqui, não nasce do medo, mas do compromisso: o discípulo vive com consciência, responsabilidade e abertura à ação de Deus na história. Como recorda Bento XVI, “a esperança cristã é sempre também esperança ativa, que nos leva a agir e não a permanecer inertes” (Spe Salvi, n. 2). Assim, o primeiro eixo do Advento no Ano A é a postura ativa de espera, própria do discípulo que lê os sinais do Reino.
O 2º Domingo do Advento (Mt 3,1-12) introduz a figura de João Batista, cuja pregação penitencial constitui o segundo grande pilar do Advento: a conversão. A mensagem do Precursor — “Convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo” — ecoa a tradição profética e prepara a comunidade para acolher o Messias. A conversão, no contexto mateano, não é mero moralismo, mas mudança de mentalidade, adesão radical à vontade de Deus. Santo Agostinho descreve esse dinamismo ao afirmar: “Deus que te criou sem ti, não te salvará sem ti” (Sermão 169). O Advento, assim, é um tempo em que a graça divina solicita a liberdade humana para uma resposta concreta.
No 3º Domingo do Advento (Gaudete), a liturgia propõe Mt 11,2-11, em que João Batista envia discípulos para perguntar se Jesus é realmente “aquele que há de vir”. Jesus responde com ações, não com títulos: “os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam”. Mateus apresenta, dessa forma, o Messias que cumpre as profecias de Isaías (cf. Is 35,5-6), o Messias cuja identidade se revela na prática libertadora e misericordiosa. De acordo com Romano Guardini, “a chegada de Cristo significa a irrupção de uma força nova na história, que transforma o interior do homem e, a partir daí, o mundo” (O Senhor, p. 53). O Advento convida, portanto, a reconhecer os sinais messiânicos presentes na realidade e a viver a alegria que nasce da presença atuante de Cristo.
O 4º Domingo do Advento (Mt 1,18-24) desloca o foco para a primeira vinda do Senhor e para a figura de São José, “homem justo”, cuja obediência silenciosa torna possível a realização das promessas. O anúncio do anjo, “Ele será chamado Emanuel, que significa: Deus conosco”, condensa a teologia do Evangelho de Mateus, que começa com o Emanuel e termina com a promessa: “Eu estarei convosco todos os dias” (Mt 28,20). A encarnação é, portanto, chave hermenêutica do Advento no Ano A: Deus se faz próximo, solidário e participante da condição humana. Como afirma o Catecismo da Igreja Católica: “O Verbo fez-se carne para que conhecêssemos assim o amor de Deus” (CIC, n. 458). A espera cristã é, dessa forma, permeada pela certeza da presença amorosa de Deus na história.
O Tempo do Advento é marcado pela sobriedade, cor roxa e ausência do Glória, elementos que não visam tristeza, mas expectativa. Os Padres da Igreja insistem no caráter pedagógico do Advento. Santo Inácio de Antioquia recorda: “É melhor calar-se e ser do que falar e não ser. É bom ensinar se aquele que fala também age” (Carta aos Efésios, 15). Aplicado ao Advento, esse ensinamento destaca a dimensão existencial da espera: mais do que discursos, o tempo litúrgico pede coerência, conversão e testemunho.
No Ano A, a espiritualidade do Advento segundo Mateus pode ser sintetizada em três eixos: vigilância, conversão e acolhida do Emanuel. Vigilância, porque o discípulo vive atento ao agir de Deus; conversão, porque a vinda do Reino exige mudança real na prática de vida; acolhida, porque Deus entra na história humana de forma humilde e transformadora. Esses elementos constituem o itinerário espiritual que prepara a comunidade para o Natal do Senhor.
A perspectiva mateana, com seu forte enraizamento bíblico, sua sensibilidade eclesial e sua preocupação catequética, oferece ao Advento uma densidade teológica orientada para a vivência concreta. O Evangelho de Mateus não apenas anuncia a chegada de Cristo, mas mostra como reconhecer seus sinais e como preparar o coração para ele. Em tempos marcados por imediatismos e superficialidades, o Advento propõe um caminho de retorno às fontes, de aprofundamento da fé e de renovação da esperança.
Assim, o Tempo do Advento no Ano A torna-se verdadeiro laboratório espiritual, no qual a comunidade aprende a arte da espera cristã. Como ensina Henri de Lubac, “a esperança é a virtude dos que sabem que pertencem a um futuro maior do que o presente que passam” (Meditações sobre a Igreja, p. 41). Inseridos nesse horizonte escatológico e encarnado, os fiéis caminham rumo ao Natal com o coração desperto, reconhecendo em Jesus o Messias prometido, o Emanuel que permanece, e aguardando sua vinda gloriosa no fim dos tempos.